Você é Bonita Também

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“Um tipo de cabelo que tem “poder” no nome, quem não iria querer? Pois eu não quis durante quase toda a minha vida.”

Foram estas as primeiras linhas de Teresa Rocha, em dezembro de 2014, do Tumblr que não poderia ter nome melhor: Bonita Também. Na época, aos 26, ela fazia seu primeiro BC, do inglês big chop, cortando o cabelo alisado para deixá-lo crescer naturalmente crespo.

“Eu não sabia que era possível ser bonita com black power, EU NÃO SABIA QUE ERA POSSÍVEL ACORDAR DE MANHÃ, LAVAR O CABELO E SAIR EM SEGUIDA PARA O TRABALHO. Eu não sabia que era possível viver sem ter que acordar e retocar o cabelo com chapinha “virando as pontas” toda manhã. Ainda não é fácil, por isso compartilho esse depoimento para apoiar outras meninas que ainda estejam em dúvida de assumir o crespo”, dizia seu primeiro texto em (algumas) letras garrafais.

A confissão pessoal e o apelo por “doação de histórias” rendeu no depoimento de outras mulheres sobre o processo de conquista da auto-estima com seus corpos fora do padrão idealizado: a barriga depois de algumas gestações, o nariz herdado de ancestrais do Oriente Médio, a deficiência física encoberta, e até de uma autodeclarada feiura.

Um ano e meio depois e o projeto desta publicitária de Salvador retoma de onde partiu: apoiando outras mulheres crespas em suas transições.

Vamos falar sobre essa pegada de orgulho preto, muito próprio do feminismo negro que tem crescido em representatividade na web. Como você foi se envolvendo com isso no projeto do Bonita? Foi algo que partiu de você ou foi algo que começou a surgir por conta de depoimentos de outras garotas negras?
Foi algo que partiu de mim e que também surgiu do depoimento de outras meninas. A aceitação do meu cabelo e da minha negritude vem sendo construída desde a adolescência. Quando eu fiz a transição capilar (deixando o cabelo crescer para cortar a parte com química e assumir os fios naturais) me senti livre, mas isso só foi possível depois de muito autoconhecimento e depois de ver como as meninas na mesma situação que eu estavam empoderadas. Mas, assim, o orgulho negro vai além da aceitação do cabelo, ele significa valorizar a educação para negros, lutar por mais oportunidades, respeito às religiões de matrizes africanas… É um universo grande e que eu espero que possa se expandir.

Como surgiu a ideia do Bonita Também?
A ideia cresceu durante a adolescência e foi maturada agora: sempre sofri com a pressão de não me encaixar num padrão social de beleza. Nunca me sentia adequada para as situações e isso fez com que eu perdesse oportunidades. Quando me dei conta de que outras mulheres passam pelo mesmo, reuni os conhecimentos que tenho em comunicação digital e lancei o projeto.

Você sempre se achou bonita?
Não. E, na adolescência, a sensação negativa só piorou, porque foi uma fase em que me sentia exposta, sabia que estava na hora de me posicionar no mundo, mas não me sentia segura. Minha segurança mesmo quanto à minha aparência eu posso dizer que veio ao 26 anos. Claro que ainda tenho momentos em que me questiono, mas não tanto quanto antes.

O que você já quis mudar em você?
Eu já quis ser menos tímida, o que foi bom ter acontecido. Minha profissão exige deixar a timidez de lado. Fisicamente, já quis mudar o meu nariz, mas ele faz parte da minha identidade, então, hoje percebo que isso é bobagem.

Esse padrão de beleza que é estabelecido na sociedade é um traço de machismo pra você?
O machismo ajuda a evidenciá-lo no caso do padrão imposto a mulheres, mas, para mim, a origem está nas artes plásticas, no cinema e na publicidade, que também constroem padrões para os homens. Não acho que exista uma resposta completa para essa pergunta agora, só mesmo a reflexão coletiva para ajudar a identificar de onde vem essa padronização e como combatê-la, essa é minha luta diária, entende? Estou lendo, por exemplo, a História da Beleza no Brasil, de Denise Bernuzzi de Santa’Anna, recomendo para quem deseja estudar esses fenômenos. Em paralelo, tenho lido Mulheres Que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés, e, olha, é um ótimo exercício!

Como é o feminismo no seu dia a dia?
Quando entendi o que é feminismo, passei a exercitar apoio e compreensão com as mulheres que convivo e que passo a conhecer. Antes, fazia julgamentos morais, por exemplo. Hoje, me desprendo ao máximo de atitudes assim, pois quando critico uma mulher pela sua postura, roupa, decisão de não ter filhos etc, estou criticando a mim também. Sigo defendendo e priorizando ideias de mulheres no trabalho e na vida pessoal, pois quando faço isso fortaleço a todas e contribuo para a igualdade entre gêneros.

Você acha que o feminismo pode ajudar a mudar o padrão de beleza rígido de hoje?
Sim! Quando as mulheres passam a reconhecer o seu poder de decisão, elas passam a entender que é totalmente possível dizer como desejam ser representadas, e essa atitude é construída através do feminismo.

{Por Evelin Fomin}