Sobre mudanças de endereço e as mudanças que elas nos trazem

Sobre mudanças de endereço e as mudanças que elas nos trazem

Então decidimos nos mudar. Embalar livros e discos, doar roupas que não serviam mais. Partir para um novo endereço, em outra cidade e vislumbrar uma vida melhor. Mas o que acontece nesse intervalo? E por que ele parece interminável?

Meu nome é Ludmila, sou jornalista, e já me mudei tanto de casa que alguns amigos brincam que sou especialista no cortado. Não sou, não aguento mais caixas e os pequenos estragos das grandes mudanças. Entretanto, isso é superfície. Mudança é mais uma mexida interna do que externa. Disso talvez eu entenda um pouquinho.

Foi há alguns dias no Centro-Oeste. Às vezes penso que se passaram meses, no entanto, a caixa lacrada ao meu lado me lembra que tratam-se de dias. Dias quentes e secos de Brasília favoreceram a agilidade de sair de casa para diversas tarefas: comprar material para pintar o apartamento a ser entregue, fazer o exame demissional do emprego, levar os gatos ao veterinário para exames obrigatórios da viagem de avião.

Enquanto isso, em São Paulo, o frio era de doer, me diziam. Também me falavam que arrumar trabalho na minha área não seria fácil. Não eram propriamente novidades: morar em São Paulo novamente, o inverno e a falta de boas oportunidades no jornalismo. Se tem um aprendizado sobre as mudanças de endereço e suas simbologias é que é preciso ter muita paciência com os processos e os ciclos. Você é uma coisa de cada vez? Ou tudo ao mesmo tempo agora?

São ciclos solitários, não importa com quem você está se mudando. Numa quarta-feira qualquer, existe a chance de encontrar uma foto com a melhor amiga do colegial para fazer sorrir e também desabar. Você vai querer ir ao boteco da esquina depois de horas limpando os CDs (que você jamais vai importar para uma pasta no computador) para comprar umas cervejas em plena segunda-feira para dar conta da missão. Isso inclui o embalar e o desembalar.

Nas últimas mudanças contratei empresas que colocavam tudo nas caixas e as identificavam: “roupas”, “louças”, “livros”, “diversos”. Alguns itens, porém, fiz questão de arrumar, colocar na mala que eu levaria comigo. Se o caminhão sofresse um acidente e minha vida ali desaparecesse, eu teria a última caixa de joias feita pelo meu tio, meu livro de cabeceira, documentos importantes e o anel que herdei da minha avó.

Em poucas horas, tudo está no caminhão. Tem o último copo descartável de café para oferecer (cortesia da vizinha simpática, que entende o que é mudar), a caixinha dos carregadores e aquelas mil recomendações para tomar cuidado com aquela embalagem menor. Numa fração de tempo bem menor vem o descarregar, de modo desordenado: “Confere por favor, senhora. Veja se está tudo aí”. A gente nunca sabe. Ou melhor, sabe: algo estará quebrado.

Impressionante coincidência. A primeira a abrir a porta, diante do barulho no corredor, é a nova vizinha. Ela se apresenta, pergunta se preciso de algo. Quando a vizinha aparece, volto para a infância. Quando a gente se mudava (e muito), a Rachel, amiga de minha mãe, sempre ia ajudar. Era um ritual dela separar uma panela, pratos e talheres numa sacola. Rachel pedia pro carregador que os primeiros itens que ficassem no lugar fossem o fogão e o botijão de gás. Ela fazia uma macarronada, que comíamos no fim do primeiro dia, como um manjar dos deuses.

Na minha família, e por causa da família que escolhemos, a solidariedade com a mudança é algo muito presente. Sabemos que existe por trás de uma nova etapa um desgaste físico e até emocional bem grande. Minha mãe organiza como poucas, minha irmã cuida de detalhes delicados e pequenos reparos. Eu sou a que se preocupa com as refeições. O primeiro lugar arrumado, no acampamento que se arrastará pelos dias, deve ser a cozinha.

É um alívio e uma tristeza quando a mudança chega ao destino. Uma etapa que para mim sempre gerou a frustração de não saber usar uma furadeira ou arrumar um cano vazando, por exemplo. É onde entram invariavelmente os faz-tudo ou um nome que sempre achei estranho: marido de aluguel (e vi outro dia na padaria a versão esposa de aluguel, que limpa a casa. Nada a ver com instalar o varal de roupas). Devíamos todos estar aptos minimamente a pregar nosso quadro e lavar nosso banheiro. E essa prática vem mudando, a cada mudança que faço, ainda bem.

No mercado dominado pela maioria esmagadora de homens fazendo serviços de manutenção ou gerais,  é importante ver a ascensão feminina. Quando li que havia em São Paulo uma empresa que tinha a eletricista, a encanadora, a marceneira, fiquei muito contente. É empoderador e é uma sensação de segurança para a cliente. Pois é, 2016 e eu lembrando que esses “maridos” quando tocam o interfone antes da hora combinada, provocam aquela corrida pela calça jeans e a camisa larga para recebê-los.

Ainda estou na etapa anterior àquela de pregar os famigerados quadros, mas anotei o contato das manas. Demora mesmo. Repito como mantra. Cinco caixas por dia, uma média de seis horas de arrumação, porque não estou empregada ou fazendo frilas. Na penúltima mudança, eu estava trabalhando, inclusive aos fins de semana, e foram quase dois meses desencaixotando. Tive que aprender a lidar com o fato de que não posso controlar tudo. Isso é muito bom, embora seja duro.

Nossa vida – minha, do meu marido e de três felinos – coube em 138 caixas. Como sou péssima em matemática, prefiro não imaginar em quanto tempo elas sumirão da minha frente. E também dou um conselho de quem nos últimos 5 anos fez mais de uma mudança em menos de 365 dias, duas das quais interestaduais: vá no seu ritmo e faça sem culpa o que não costuma fazer. Aproveite a mudança para tirar a culpa de sua vida.

Isso significa: você irá comer mais besteiras do que maçã e iogurte lac free. Você vai precisar de um sanduíche reforçado mesmo. Permita-se. Nosso corpo é sábio e você logo voltará para o suco verde e a torrada sem glúten, se for seu caso. Tem dias que você vai querer dormir até às dez da manhã: faça isso porque você precisa repor as energias. Vale ir ao cinema no meio da tarde e comprar um cachecol novo porque não achou aquele seu lindo vermelho no meio das caixas.

Se você tem mania de limpeza, relaxe. O bom de ter bichos é que eles vão contribuir para esse desapego. Vão se enfiar nos cantinhos sujos, cheios de poeira e deitar nos lençóis limpos que acabaram de ser estendidos. Não adianta levá-los para o pet shop antes da casa ficar habitável. Não os repreenda. Eles estão se adaptando ao ambiente e redescobrindo os cheiros das coisas que estavam guardadas.

Você vai gastar muito dinheiro, porque de uma maneira impressionante os gastos não planejados surgem. Mas é importante saber economizar ou mesmo esperar o melhor momento para decorar seu cafofo do jeito que você queria. Se os sapatos não couberem no armário, busque na internet soluções antes de comprar uma sapateira. Eu virei, nos últimos anos, a cliente preferencial de costureiras e marceneiros para reformar aquilo que precisava ser adaptado. Troque ideias com amigas cheias de boas ideias. Elas estarão com a cabeça mais arejada.

Na reta final, tem coisa que vai para a doação mesmo, além das que foram na triagem (no meu caso, quase tudo com a voltagem padrão do Centro-Oeste: 220v, o que me faz questionar porque os produtos não são bivolt, como secadores de cabelo). Isso não é para a gente se sentir bacana, é para refletir sobre o consumo. Mudar é saber que ninguém precisa de três abridores de vinho para viver. Antigamente, aliás, se um quebrava, a gente batia na porta daquela vizinha simpática, pegava emprestado e o devolvia com uma bandeja de biscoito frito como agradecimento. Só então comprava outro.

Sabe o dinheiro que você vai economizar não comprando tudo novo, de maneira impulsiva? Invista numa massagem relaxante, num espumante para brindar com os mais chegados sua linda morada (depois que a última caixa for para a reciclagem), em plantinhas para dar aquele astral (em mudanças para outro Estado, a maioria das empresas não transporta plantas). Não é frescura, é tudo aquilo que você precisa para curtir cada cantinho do lugar mais especial que existe e praticar a vida melhor que vislumbra.