Respeitem meus cabelos roxos

Respeitem meus cabelos roxos – Somos Todos Feministas

A beleza natural é mais valiosa que a fabricada.

Este foi o conceito que me foi incutido desde que entrei na adolescência. O peito naturalmente empinado valia mais no mercado da beleza do que o siliconado.

O rosto que conseguia ser perfeito lavado, sem maquiagem, era, sem dúvida, a ação mais cara da bolsa de valores femininos.

Cabelo liso só valia se fosse naturalmente assim e, obviamente, tinturas que “destruíam o cabelo” deixavam a aparência “artificial” demais. Eram um caminho sem volta.

Eu poderia entrar no mérito de como essa lavagem cerebral aconteceu, de onde eu tirei isso, mas a questão é que esse ideal, associado com o meu senso prático, fez com que eu me tornasse uma jovem mulher vaidosa sim, mas que consumia pouquíssimos cosméticos, não lia revistas de beleza, passava pouco tempo nos salões e não ousava no visual.

Fui feliz assim. Era meu estilo. Batom vermelho, eu achava, ressaltava os meus dentes levemente para frente. Amava o tom de castanho do meu cabelo e o fato de que xampu e condicionador eram o suficiente para deixá-lo lindo até o próximo corte, que demoraria meses.

Mas, no recôndito do meu ser feminino, eu sonhava com olhos marcados por kajal e mechas ruivas voluptuosas. Costumava dizer que esperaria os fios brancos aparecerem para brincar com as mais diversas cores de tintura.

Meninas de rastafári e tranças afro também me deixavam babando. Sem coragem, ficava apenas admirando. Certa vez, fiz o que foi a maior “loucura” com o meu cabelo. Fiquei três horas sentada em um banquinho numa ladeira do Pelourinho, em Salvador, para que uma baiana fizesse trancinhas e as enchesse de contas azuis. Aguentei três dias. Doía muito na hora de deitar a cabeça no travesseiro. :-)

Com o tempo, percebi que a maquiagem fazia sim uma diferença na minha aparência. Valorizava meus olhos, uniformizava a minha pele. Ainda estou testando, aprendendo, mas já não saio de casa sem base e rímel – e isso não é uma obrigação, é um prazer.

E cada vez mais passei a pensar em que cor gostaria de pintar meus fios. Flertava com a ideia do vermelho. Mas foram os dip dyes coloridos que me convenceram de vez. As mechas que pegam da metade do cabelo para as pontas, em tons como azul claro, rosa e lilás, pareciam casar tanto com meu espírito urbano, romântico e idealisticamente livre!

Era um grande passo para mim. Do cabelo “virgem” às mechas arroxeadas. Mas não tive insegurança. Estava decidida e quis compartilhar a novidade com pessoas próximas. Escutei vários comentários de incentivo, mas também frases como: “Você não tem 15 anos”. “Você vai destruir o seu cabelo”. “Pirou”. Teve quem achou que eu estava pedindo opinião e disse simplesmente: “Não”.

Não me abalei. Fui, fiz e nem liguei para as torcidas de nariz. Amei meu cabelo roxo. Se não tivesse amado, teria arcado com a consequência de esperar crescer e cortar até que sumisse a cor. Simples assim.

Não preciso que aprovem as minhas escolhas. Mas, por favor, respeitem os meus cabelos roxos.

{Por Marina Monzillo}