Precisamos falar sobre o cabelo ruim da sua filha

Precisamos falar sobre o cabelo ruim da sua filha

Era o meio da semana e marcamos um almoço de trabalho. Entre uma frase e outra, uma pausa. E um desabafo:

“Gente, preciso contar algo pra vocês que me chocou muito e me deixou perplexa até agora. Minha cunhada alisou o cabelo da minha sobrinha de 4 anos”.

O almoço tomou novos contornos. Éramos ali naquela mesa integrantes de dois mundos, duas sociedades distintas. Divididas pela identidade expressas na pele e nos fios da cabeça. Éramos duas brancas confortáveis em suas pelagens lisas diante de uma negra prestes a nos contar algo muito profundo sobre os muitos significados do cabelo crespo em uma sociedade que varre para baixo do tapete do alisamento a questão do racismo profundo e enraizado neste Brasil, nesta São Paulo. O assunto daquele almoço precisava ser amplificado e compartilhado e aprofundado, o que fizemos depois, em uma longa e generosa entrevista – embora sem a revelação dos RGs envolvidos, essa é a história de milhares de mulheres negras brasileiras.

#SomosTodosFeministas – Como foi a relação com o seu cabelo desde menina?

Nunca tive nenhuma referência de mulheres com o cabelo crespo natural. Minha mãe sempre alisou e o restante da família também. Lembro da minha mãe penteando o meu cabelo com escova, a seco, era um sofrimento. Quando criança, o meu cabelo sempre estava trançado, ou com cachinhos feitos com gel. Essa parte era legal!

Aos 9 anos, minha mãe passou “ferro” pela primeira vez. O ferro era o equivalente à chapinha de hoje, mas tinha de ser esquentado no fogão. Me lembro que eu fiquei muito empolgada antes de fazer, achando que depois de passar ferro meu cabelo iria ficar liso escorrido. Não foi o que aconteceu, ficou horrível!

A primeira vez que fui ao cabeleireiro alisar o cabelo com química foi mais ou menos com 11 anos. A partir daí, eu comecei a pentear e a prender sozinha o meu cabelo. Não era fácil. Eu comecei a fazer coques. Era a única coisa que eu conseguia fazer.
Quando a raíz crespa começava a aparecer, corria para o salão alisar.

Só fui me relacionar com o meu cabelo natural no período da faculdade, depois dos 20 anos. Antes disso, eu entendia que ele era errado. Ponto.

Você convivia com crianças que tinham cabelos semelhantes ao seu?

Apesar de estudar em escola pública, não tive muitas amigas negras ou com o cabelo crespo. A escola não ficava em um bairro periférico e, por isso, não tinha tantos negros, eu acho. Na vizinhança, tinha a Marcela e a Vanessa. As duas tinham a pele clara, mas o cabelo era crespo como o meu. Lembro que colocávamos toalhas na cabeça pra fingir que tínhamos cabelo liso. Eu tinha uma manta rosa com franjinhas que era meu cabelo fake favorito [risos].

No seu convívio familiar, como os cabelos black eram vistos? Quais adjetivos eram usados?
Cabelo duro e cabelo ruim são adjetivos que escuto até hoje. Não diretamente pra mim. Mas, pouco tempo atrás, ouvi de uma prima, que falava sobre minha sobrinha: “Essa vai ser como eu, clarinha do cabelo ruim”. Na infância, o de sempre: bombril, cabelo duro, palha de aço.

Houve algum momento em que você deixou de gostar do seu cabelo?
Desde sempre. Na verdade, eu comecei a gostar do meu cabelo só depois dos 28 anos.

Como foi o seu histórico de alisamento? E quando resolveu deixá-lo ao natural?
Depois dos 11 anos, segui até o período da faculdade relaxando o cabelo, com um intervalo de dois anos, quando fiz tranças já na adolescência. Tentava soltar os cachos, como se isso fosse possível. Nunca tinha o resultado que eu esperava. Sempre saía insatisfeita do salão.

No período da faculdade, por conta de um sentimento de revolta, falta de tempo e de um certo redescobrimento, cortei meu cabelo bem curtinho. Foi libertador. Deixei meu cabelo natural por mais de um ano, mas curto na maioria do tempo. Na época, eu não tinha claro o que estava fazendo e não sabia como cuidar do meu cabelo crespo. Passado esse período, voltei a procurar “os cachos perfeitos” porque deixar ele crespo, nem pensar!

Segui fazendo relaxamento e permanente, o que me rendeu algumas quedas de cabelo. Cheguei nas tranças novamente, o canecalon, para dar um tempo na química, e descobri com o tempo que essa era uma maneira de expressar minha negritude, mas com os cabelos “domados”. Depois de muito tempo, estava me sentindo bonita novamente.

O que você pensa a respeito do “adestramento” dos cabelos crespos, tanto em termos práticos como políticos, simbólicos e ideológicos?
Só depois dos 30 anos é que consegui ligar alguns pontos do que é o racismo no Brasil. Alisar o cabelo virou o natural e é uma maneira de ~amenizar~ a negritude e, de alguma forma, ser mais aceita. O padrão é ter o cabelo liso, o que é um absurdo em um País onde mais de 50% da população se declara negra ou parda. Provavelmente, por conta da miscigenação, a porcentagem de pessoas com o cabelo crespo deve ser muito maior.

Em termos práticos, não somos ensinadas a cuidar do nosso cabelo crespo. Nossos cabelos precisam de cuidados e precisam ser cuidados de uma maneira diferente. É impossível querer usar o pente em um cabelo crespo, e qual é o problema nisso? Usar pente não é a única maneira de desembaraçar um cabelo. Parece óbvio, mas é muito comum ouvir “alisei o cabelo da minha filha para ficar mais fácil de pentear.”

Assumir o volume, entender que o nosso cabelo cresce de uma maneira diferente, que ele é diferente e, nem por isso, é ruim é um aprendizado. Somos bombardeadas desde cedo com um padrão europeu de beleza que não é a nossa realidade. Perseguir isso é cruel. Pra mim, isso é resquício da escravidão e da ideia de que o negro é menor, não é bonito, é pra ser domado.

Escutei uma vez de uma menina que estava no período de transição do cabelo alisado para os cachos naturais: “Deixar o cabelo com volume natural é uma maneira de dizer que a gente não vai se submeter para o que está sendo imposto”. Também é uma maneira de dizer com o meu corpo que eu me amo, que tenho orgulho da minha estética e que sou livre, apesar de muita gente ainda achar que não.

O cabelo black na menina era encarado de forma diferente do cabelo black em menino?

Escutei de uma prima uma vez: “Se for menino raspa, se for menina passa pasta”. O cabelo liso e com movimento é muito valorizado na mulher, é sinal de feminilidade, acho que essa é a principal diferença. Quando uma menina nasce com o cabelo crespo, ela vai sofrer porque vai ter de alisar o cabelo pra sempre. E, por causa desse conceito, é comum ouvir: “Tadinha, tem cabelo crespo!”  Para os meninos, é mais prático [domar os fios crespos], é só raspar.

Como foi ter essas características de cabelo e cor de pele sendo mulher e na época da adolescência? E como foi isso já jovenzinha? E agora, na vida adulta?

Tenho alguns questionamentos sobre a minha criação, mas uma das coisas que foi exemplar nos meus pais é que eles sempre deixaram claro que nós podíamos tudo. Isso foi essencial para mim como mulher e negra.

Tive poucos problemas na escola, mas minha mãe sempre me ajudava a argumentar com os coleguinhas de uma maneira que deixasse o fato de eu ser negra o mais natural possível. O que era pra ser agressão virava banalidade. Um dia, um coleguinha de classe disse: “Sua mãe é negra!” Cheguei chorando em casa. Minha mãe me fez ver que ser negro não é xingamento e aconselhou: “Da próxima vez, você diz ‘é mesmo e a sua é branca, e daí?’”. E, no outro dia, o mesmo menino veio com o que ele considerava xingamento e eu dei a tal resposta. Nunca mais ele me encheu.

Quando eu tinha 10 anos, saímos de um bairro pobre e fomos morar em um bairro de classe média, com moradores majoritariamente brancos. Depois de alguns meses, um vizinho veio parabenizar meu pai! Antes de a gente se mudar, uma das vizinhas, que era branca e com filhos brancos, lançou a pérola: “Vocês reclamam [da malcriação] dos meus filhos, mas quando chegar uma família de negros para morar aqui é que vocês vão ver o que é ~bom~!”

A maior parte das minhas amigas é branca, e isso até hoje. É triste ver que, quanto mais você passa no funil, com menos negros você convive. E o funil, no meu caso, é não morar na periferia, ter feito ensino técnico, faculdade, ter um emprego qualificado.
Na adolescência, eu me sentia preterida. Eu nunca era a paquerada da turma, muito menos a bonita. Eu era a legal e engraçada. Esse era o meu papel.

Muitas vezes, minhas amigas ficavam com os garotos e eu não tinha um par. Era estranho, mas eu não conseguia encaixar os pontos. Só fui me sentir ‘ficável’ quando comecei a me relacionar com meninos negros. Eles me olhavam, me achavam bonita e queriam ficar comigo. Foi uma descoberta.

Por muito tempo, ser mulher e negra, apesar de todas as coisas que já passei, não era uma questão que eu achava que poderia definir o meu futuro. Eu não conseguia ligar alguns pontos, mas nunca achei que era culpa do machismo ou do racismo. Afinal, meus pais sempre disseram que eu podia tudo e essa foi a principal diferença na minha criação. Por conta disso, acabei procurando alternativas e sempre me dediquei muito aos estudos.

O racismo e o machismo estão muito ligados nesse ponto: a auto-estima e a domesticação. Para mulheres e negros já é ensinado que o mundo vai até ‘aqui’ e só. Você pode isso e isso e isso, um pouco mais não! Olhamos para fora e não encontramos referências. Achamos que é o que tem que ser. Que é assim.

O que mais me assusta hoje é ver que sou uma exceção, isso é o que dói mais. Sou uma exceção no meu trabalho, no meu bairro, nos lugares que frequento. Na faculdade, por exemplo, quando juntavam três classes, que somavam um pouco mais de 90 pessoas, eu era a única negra. Moro há dois anos em um prédio em Perdizes que tem mais de 90 apartamentos e nunca cruzei com um vizinho negro. Aqui em São Paulo, os contrastes são maiores, é muito comum eu ir a lugares aonde só existem negros servindo.

Quando sua sobrinha nasceu, como eram os cabelos dela? Houve algum comentário relevante a respeito?
Os cabelos da minha sobrinha sempre foram crespos. Era engraçado ver a ‘esperança’ do cabelo dela ‘soltar’. Até eu me peguei em alguns momentos como esse sentimento.  “Ah, esse cabelo vai cair, vai soltar mais um pouco”, minha mãe falava.
Antes do nascimento dela, lembro de ficar sabendo que a irmã da minha cunhada, que é branca, perguntou se dava pra ver no ultra-som se o bebê era negro ou branco. Talvez para ela isso fizesse diferença.

Como são os cabelos naturais do pai e da mãe da sua sobrinha?
Meu irmão tem o cabelo crespo, minha cunhada tem o cabelo liso cacheado.

Ao longo dos anos, você viu alguma semelhança na sua relação com o seu cabelo parecida com a que sua sobrinha estava vivenciando?
Eu presenciei a falta de conhecimento da mãe nos cuidados do cabelo crespo. Essa obsessão em querer pentear com pente fino nossos cachos tão fechadinhos. Uma vez, quando ela ainda estava com o cabelo crespo, eu deixei solto e minha sobrinha reclamou do volume! Engraçado ver uma criança de 4 anos querendo baixar o cabelo. De alguma maneira, ela já percebeu a diferença do cabelo dela e das princesas dos desenhos que ela assiste.

Houve algum comentário da sua sobrinha em relação ao seu próprio cabelo?
Ela ganhou uma boneca Monster High com cabelo crespo e azul. E então ela me falou: “Olha, parece a Dinda!” Outro dia, ela abraçou minha cabeça e comentou: “Cabelo fofinho da Dindinha”.

No que se refere à identidade negra brasileira, como você tem expressado isso quando está com ela?
Pra mim, isso é muito novo e eu estou aprendendo também. Mas, o mais importante, é ser uma referência para a minha sobrinha e não ensinar nenhum tipo de preconceito. Os estereótipos relacionados aos negros me incomodam muito também, então, o mais importante é ela se amar, do jeitinho que nasceu, e ser o que ela quiser ser.

Como aconteceu o episódio do alisamento? Qual foi a trajetória específica que levou a esse desfecho?
Há algum tempo, a mãe da minha sobrinha vinha reclamando da dificuldade de arrumar o cabelo da filha. Dizia que era demorado, não sabia o que fazer. Tentei dar alguns conselhos, mas não sei se eram muito bem-vindos. Já escutei ela falar: “Preciso arrumar o cabelo da minha filha porque na escola a criançada vai pegar no pé dela”. Acho muito complicado esse pensamento. Primeiro, porque ela acha que o cabelo arrumado é o cabelo liso e, em vez de os pais ensinarem a criança a amar o próprio cabelo, desde cedo já mostram que quem está errada é a criança, ela é que precisa se adequar.

Minha cunhada foi procurar um salão para “soltar os cachos”, aquela velha história, e o produto que passaram no cabelo da pequena acabou alisando o cabelo por inteiro. O mais difícil foi ouvir os comentários e ver uma criança de apenas 4 anos passar por um processo químico por conta do cabelo crespo.

Comentários como: “Cabelos de princesa” e “Enquanto eu cuidar, vai ser assim, depois ela escolhe”, vindos da própria mãe, que é branca e casada com um negro, mostram o quanto as pessoas não sabem nada sobre racismo e auto-estima. Falar que só depois de passar por um processo forte, que pode causar danos, principalmente, em uma criança, e para, só assim, dizer que ela tem cabelos de princesa, na minha visão é uma maldade. Quando criança, muitas vezes eu tive feridas na cabeça e os chamados cortes químicos por conta dos relaxamentos.

Como uma criança, que é bombardeada por personagens da Disney, princesas brancas, com cabelos longos e lisos, não vai achar que ANTES ela estava feia e inadequada? A frase “depois ela escolhe” mostra o desconhecimento que os pais têm em relação à formação da auto-estima de uma criança. Uma criança que não aprendeu a se amar e a respeitar suas características e que, além de tudo, não tem referencial à sua volta, vai querer ter o cabelo natural ao crescer? Ela, infelizmente, já entendeu aos 4 anos que está fora dos padrões. Se ninguém a ensinar a se amar agora, vai ser uma adolescente e uma adulta insatisfeita,  procurando uma beleza imposta que não é a dela.

Baseada na sua experiência hoje, o que você recomendaria aos pais de crianças com cabelos crespos? E para adolescentes e adultas?
Ensinem os seus filhos a se amarem como são. Comentários negativos sobre as características da criança não ajudam em nada no desenvolvimento e na auto-estima. Paciência é essencial. Não duvide que isso fará diferença na vida adulta dessa pessoinha. O cabelo crespo precisa de cuidados diferentes dos cabelos lisos e, alguns anos atrás, era quase impossível encontrar informações sobre esses cuidados. Hoje, muitas blogueiras e muitos vídeos no YouTube dão dicas de cuidado e tratamento. É muito legal ver esse movimento de mulheres que passou a vida inteira alisando o cabelo e agora se reencontraram com um lado delas que estava tão domesticado. É importante questionarmos tudo que foi imposto pra gente até hoje. Por que meu cabelo é ruim? Por que eu não posso usá-lo ao natural? É muito bom ver uma nova versão de nós mesmas ressurgir, é realmente um reencontro.

{Por Evelin Fomin}