O machismo entre as lésbicas

O machismo entre as lésbicas

O machismo é um vírus potente e que afeta todas as relações humanas. Não é à toa que a frase seguinte é tão boa:

“O machismo prejudica os homens. O feminismo, não.”

A frase é só um exemplo de como o machismo vai se espalhando pela corrente sanguínea da sociedade e afeta ambientes predominantemente femininos, como o das lésbicas. Na entrevista a seguir, com Amanda C., autora do BlogSouBi, ela fala sobre o machismo entre as lésbicas, sobre a moda entre as meninas “masculinas” e “femininas”, sobre a paquera e a abordagem permeadas pela inércia entre mulheres que não são estimuladas à caça e outros binarismos de gênero.

#SomosTodosFeministas – No seu blog, há vários textos que falam sobre as dificuldades de uma mulher abordar outra quando há algum interesse. Você acha que o machismo faz com que a mulher, bissexual ou não, seja retraída para abordagens do tipo?

Amanda C. – Acredito muito que o machismo influencia a falta de atitude da mulher. Ela foi acostumada a não abordar, a não pedir em casamento, a não transar no primeiro encontro. E esse “costume” também pode se refletir nas relações lésbicas. Quando comecei a ir a ambientes LGTB, me deparei muito com esse tipo de situação. Eu demonstrava nítido interesse na mulher, flertando descaradamente, sem tirar os olhos, e ela fazia o mesmo. Mas nada acontecia porque ficávamos esperando a atitude da outra.

Como bissexual que se relacionava anteriormente apenas com homens, sempre fui “acostumada” a ser abordada, então sempre foi muito cômodo esperar alguém vir falar comigo. Quando percebi que deveria sair da minha zona de conforto, foi bem mais difícil. E até deixar tudo isso natural, foi um processo muito intenso de aceitação. Além disso, tive de trabalhar muito mais a minha auto-estima. Eu não estava acostumada a receber um não, porque era eu quem falava o não.

Sem dúvida, também passei a me colocar muito no lugar dos homens. Na maioria das vezes, eles lidam muito melhor com a rejeição do que as mulheres, porque já estão “acostumados”. Não podemos generalizar, é claro. Mas é comum você ver um homem insistindo para conquistar uma garota até conseguir. As lésbicas e bissexuais podem até fazer isso com outra mulher mas, nos casos que presenciei, é sempre mais difícil. Há sempre muito medo. É realmente difícil sair da zona de conforto.

No texto Como descobrir se uma mulher é lésbica ou bissexual, você abre o texto com a seguinte citação: “Algumas garotas lésbicas afirmam ter o famoso “gaydar”, ou seja, um radarzinho natural que identifica se a menina ficaria ou não com outra mulher. Eu não faço parte desse grupo. Nunca consigo descobrir se uma menina é ou não lésbica, a menos que ela seja bem masculina.” O que você quer dizer com uma menina “bem masculina”? Quais as características de uma “menina bem masculina”?

É engraçado dizer isso, não é? Mas para a sociedade em que vivemos, em que o sexismo ainda impera, fica mais fácil de visualizar. A menina masculina é aquela com trejeitos de homem e que, de alguma forma, na sua vestimenta, “rejeita” a figura feminina. Ela quer se parecer com um homem. Usa boné, roupas bem largas, cabelos curtos. Uma mulher pode ser assim? Óbvio que pode. Mas ainda temos alguns padrões que estabelecem o que um homem e uma mulher devem usar. Claro que eu não concordo com esse padrão, mas é como ainda enxergamos o gênero.

A moda, vez ou outra, vem quebrar esse padrão, lançando calças largas para mulheres que podem ser usadas com blusa justa ou vice-versa, mas, de alguma forma, o corte da roupa e as combinações continuam passando a imagem que desejam passar: essa é roupa de homem e essa outra de mulher. O meu desejo é que um dia esses padrões deixem de existir. Um homem, quando quiser, poderá usar salto. E a mulher, a roupa que quiser.

Não estou falando aqui que alguém vai deixar de ser homem ou mulher por conta disso. Mas que certos padrões deixarão de existir. Afinal, não foi o marketing o inventor do rosa para menina e azul para menino? Aliás, antes era o contrário, veja que engraçado. As roupas também fazem parte da cultura, que pode ir se alterando ao longo do tempo. Na Escócia, os homens não usam saias? Basta uma moda determinar que isso é válido e pronto, estará estabelecido.

É muito interessante ler o conteúdo do BlogSouBi porque ele explora um universo específico e, por isso, tem algumas particularidades. Mas ainda falando do mesmo texto ‘Como descobrir se uma mulher é lésbica ou bissexual’, alguns sinais de binarismo de gênero acabam saltando. O que você quis dizer com “nenhuma lésbica teria unhas compridas”?

Ter unhas compridas é sinal de algo específico? Por que uma lésbica prefere ter, na sua opinião, unhas curtas? Quando escrevi esse texto, eu realmente acreditava nisso [risos]. Estava ainda na fase de conhecimento do mundo LGBT. Muitas lésbicas têm unhas compridas porque muitas delas não têm relação sexual usando o dedo para a penetração. Se alguma lésbica disser que consegue fazer isso com unhas compridas, por favor, me diga como, seria um post interessante [risos].

As unhas curtas são justamente para o sexo, nada mais do que isso. Não quer dizer que a mulher deixou de ser vaidosa porque se descobriu lésbica ou bissexual. Mas é claro que muitas mulheres heterossexuais também têm unhas curtas. Algumas não gostam de deixá-las compridas, outras alimentam vícios como roê-las e por aí vai.

Isso me leva a começar as perguntas sobre as bis ou lésbicas que se identificam com um visual “feminino” ou “masculino”. Quando você começou a se descobrir, você imaginava encontrar esse binarismo? O que encontrou de interessante e surpreendente em relação a essas identificações?

Olha, essa pergunta é muito interessante e me leva a refletir sobre mim mesma. Quando eu era criança, sofri muito porque eu não me vestia como “menina”. Jogava futebol, usava boné, bermudão e tentava me comportar de forma similar aos meus amigos homens. Eu queria ser como eles porque eu não tinha amigas mulheres. Então sofri bullying por conta disso. Era chamada constantemente de sapatão.

Naquela época, a minha identificação com o “visual masculino” era tão forte que uma menina começou a morar no prédio e quando me viu pela primeira vez achou que eu fosse um garoto. Só depois, contaram pra ela [que eu era uma garota]. Minha mãe tentava me deixar mais feminina sempre, o que me irritava profundamente. Nas festas juninas do colégio, eu sempre queria ir de calça xadrez e camisa, a roupa que os meninos “deveriam usar”. E, claro, sem maquiagem. Mas minha mãe me obrigava a colocar vestido e me pintava com blush e batons bem vermelhos.

Eram dias horríveis pra mim. Então comecei a usar algumas estratégias. Quando faltavam meninos para as danças juninas, eu me prontificava a substituí-los e minha mãe ficava irritada, mas não tinha alternativa. Ela não podia mais colocar o vestido. Então, ela começou a querer que eu me vestisse mais feminina em situações que não faziam o menor sentido.

Uma vez, estava chovendo e eu queria ir até a quadra do prédio para jogar futebol. Minha mãe só me deixou ir com uma condição: colocar um vestido branco de renda. Vestido branco para jogar futebol? Não tive dúvidas. Voltei com ele completamente sujo. Foi quase uma vingança. Mas eu era o lado mais fraco. Ela me proibiu de brincar com os meninos um tempo depois. E eu fiquei “mais feminina” porque passei a andar apenas com as garotas do colégio. Lógico que passei a sofrer menos, porque as pessoas pararam de fazer bullying comigo, mas demorei mais a aceitar a minha bissexualidade.

É importante notar que, apesar de me vestir naquela época como menino, eu ainda não tinha me dado conta de que também gostava de mulher. Eu me apaixonava apenas pelos menininhos. Só fui perceber a minha atração por mulher na adolescência, mas reprimi isso por muito tempo por medo de sofrer bullying de novo. É um trauma que tenho na minha vida, sem dúvida.

Não culpo a minha mãe, apesar de ela saber hoje o que fez. Ela queria que eu seguisse um padrão do que era ser mulher. E eu nem sabia, na minha cabeça de criança, que esse padrão existia. Eu só queria brincar à vontade com os meus amigos. E mesmo se eu soubesse, qual o problema? É isso que as pessoas precisam começar a perceber. A roupa não diz quem você é, mas apenas como você gosta de se vestir. Ainda bem que pelo menos já virou moda mulher de cabelos curtos [risos]. Mas respondendo à sua pergunta, nada me surpreendeu, porque essa percepção já existia dentro de mim há muito tempo.

Na série Orange is the New Black, a personagem Big Boo (a comediante Lea DeLaria) faz o tipo lésbico “masculino”. Ela é assim também na vida real e se veste com ternos e roupas comuns aos homens. Esse estereótipo de meninas-menino entre as lésbicas me parece algo muito mais profundo do que apenas o visual. Você acha que, na maioria dos casos, tem a ver com a questão cisgênera? Ou também é uma questão de ruptura com o que pode ou não ser do “feminino”?

Olha, muita gente fala em ruptura, mas acho que depende muito da pessoa. Eu, quando tinha um visual mais masculino, era porque eu achava as roupas mais legais, bonitas e confortáveis. Apenas isso. Tem gente que prefere mesmo roupas masculinas. Não tem mulher que prefere perfume masculino? Eu vejo isso de uma forma muito mais simples. Há algumas teorias de que essas pessoas, na verdade, querem se rebelar e mostrar a todos do que gostam. Não vejo muito sentido nisso. Você se rebelaria usando uma roupa que não curte usar? Quantas mulheres não falam a todo momento que odeiam determinadas roupas e usam apenas para ficarem dentro do padrão?

Acho que também podemos citar os crossdressers. São homens que gostam de se vestir de mulher, mas são heterossexuais. Eles não se vestem de mulher a todo momento, mas gostam de fazer isso. Além disso, também devemos considerar as pessoas que realmente gostariam de trocar de sexo. Aí já é outra história. Tem muita gente que realmente não se enxerga no corpo e, por isso, se identifica muito mais com o outro gênero. Mas apenas cada um pode saber se é uma questão apenas de vestimenta ou de necessidade de mudança de gênero. O filme Tomboy aborda o tema da transsexualidade de forma muito interessante. É uma menina que, desde pequena, quer se identificar como menino.

Uma vez você e eu falamos sobre machismo praticado por mulheres em baladas de lésbicas.

Em balada e mesmo em bar LGBT, às vezes, tem mulher querendo reproduzir algumas atitudes feitas por homens. Elas medem a mulher, falam “psiu” e todos aquelas gestos que ~adoramos~. Não me lembro de nenhuma lésbica ou bi ter usado a “força física”, como puxar pelo braço, por exemplo. Ao mesmo tempo, não podemos dizer que a violência entre mulheres não existe. Já ouvi relatos de mulheres que foram agredidas por suas namoradas. É horrível pensar que isso também existe, não é? Fala-se muito pouco disso para não deturpar a comunidade LGBT, mas sim, existe, e devemos abordar o assunto.

O machismo entre as ~sapatas~ é mais difícil de ser detectado? O termo ~sapata~, aliás, é um termo machista, sim?

Olha, difícil dizer. Acho que muitas mulheres heterossexuais são machistas e não se dão conta. Acredito que uma mulher, em sã consciência, não gostaria de ser machista, mas acaba sendo por ignorância. Com certeza, nós já fomos machistas em algum momento e nem paramos para refletir sobre isso. Às vezes, falo para a minha esposa: “Mas você vai com essa roupa colada?” E ela obviamente me responde: “É claro que sim.” E depois me dou conta de que fui machista. Não paramos para pensar em algumas atitudes que nos parecem ingênuas, mas que acabam afetando o modo como as mulheres se comportam.

Infelizmente, as mulheres ainda não são “totalmente livres” para usarem qualquer roupa, por exemplo. Muitas não têm coragem de pegar um metrô lotado com uma minissaia. Isso é um grave problema cultural. Não só os homens a julgarão pela roupa, como as mulheres também.

Sobre ~sapata~ ser um termo machista, talvez possamos dizer que sim. Alguns estudiosos dizem que o termo é literal e surgiu para fazer referência a pés grandes, algo que reconhecemos como “masculino”. Poderíamos pensar, a partir disso, que para ser lésbica precisa “parecer masculina” ou que é preciso sempre ter uma figura masculina no casal – e sem ela, não há casal. Por isso, quando eu e minha esposa vamos a algum lugar, ninguém imagina que somos casadas. E quando descobrem que somos, nos indagam surpresos: “Mas vocês não parecem lésbicas. As duas são femininas.” Ainda há muito a ser esclarecido sobre a sexualidade. As pessoas ainda estão presas a estereótipos, acreditam que para uma mulher gostar de outra mulher, ela precisa necessariamente parecer um homem. Não, gente, não é isso.

{Por Evelin Fomin}

—> Ilustração de Geoff Mcfetridge.