Nenhuma mulher é o homem da relação

Desconstruir o estereótipo 'sapatão' nos faria um bem enorme

Se você é mulher, deverá corresponder a duas expectativas: exibir traços femininos e ter desejo por homens. Do contrário, será tachada de mal-comida e uma sapatão que merece ser linchada.

A exigência faz com que muitas lésbicas e bissexuais enfatizem que são “femininas”, como se o fato de gostarem de mulher as tornasse necessariamente “masculinas”. Pior. Se o fato de serem lésbicas ou bissexuais as fizessem (necessariamente) “masculinas”, isso poderia ser inaceitável para os padrões vigentes. Então, mesmo fora do padrão, elas querem estar “no padrão”.

Mas afinal, o que é ser masculina? Usar roupas largas, cabelos curtos e evitar maquiagens? Não depilar os pelos das pernas e falar “grosso”? O que faz uma mulher deixar de ser mulher? E mais: o que faz uma mulher querer “se parecer com um homem?”

A matriz heterossexual de poder, apoiada por um machismo agressivo e opressor, nos cegou para um fato importante: sexo e gênero são discursivamente construídos, segundo a filósofa, feminista e “mãe” da Teoria Queer, Judith Butler.

Se aceitarmos que o gênero é construído e que não está, sob nenhuma forma, “natural” ou inegavelmente preso ao sexo, então a distinção entre sexo e gênero parecerá cada vez mais instável, segundo a autora Sara Salih, na obra Judith Butler e a Teoria Queer.

O que é ser mulher, afinal? Enquanto muitos estudos de gênero determinam o sujeito lésbico, a fêmea e o feminino, a Teoria Queer faz uma investigação e uma desconstrução dessas categorias. São os discursos e as práticas que determinam o sexo, a sexualidade e o gênero.

Se nossas identidades são construídas, significa que podem ser reconstruídas sob formas que desafiem e subvertam as estruturas de poder existentes, segundo Butler.

Desconstruir o estereótipo “sapatão” faria um bem enorme para trazer um significado renovado às lésbicas e bissexuais acostumadas a ouvirem “jura que você gosta de mulher? Nem parece”. Ou de ter a necessidade de reforçar a todo o momento que “não deixamos de ser mulher por gostar de mulher”. Assim como não queremos ser “o homem da relação”.

Na recusa da heterossexualidae obrigatória, as lésbicas e bissexuais são acusadas de quebrarem as representações de homem e mulher. São reféns do que a feminista Adrianne Rich chamou de “heterossexualidade compulsória” — a ordem dominante pela qual homens e mulheres se veem solicitados ou forçados a serem heterossexuais. Ora, se você é mulher, precisa gostar de homem. Do contrário, deixa de ser mulher — #sqn.

Não consigo esquecer um episódio de um homem que conheci em uma viagem. Ele evitou durante toda a nossa estadia falar de mulheres de forma “vulgar” na minha frente. Quando contei que também gostava de mulheres, o comportamento mudou. “Você viu aquela gostosa na rua? Agora posso falar com você como se fosse um brother, não é?”. Não, não pode. Eu não sou seu brother. Continuo sendo a mesma mulher que você conheceu.

{Por Amanda C., autora do BlogSouBi}