Fui chamada de ‘preta escrota’. E não me calei

Fui chamada de 'preta escrota'. E não me calei

Era uma sexta-feira de junho de 2013 e eu estava ansiosa para trabalhar no show do Afrika Bambaataa, apenas o precursor do hip-hop no mundo, na casa de shows em que eu fazia assessoria de imprensa há pouco mais de dois anos. Saí da agência, onde trabalhei o dia inteiro, comi alguma coisa rápida e fui para a segunda etapa do trabalho com meu amigo que, na época, era estagiário e ficaria comigo na porta atendendo à imprensa e alguns convidados dos sócios.

Em dias de shows, muita gente confunde a função de um assessor de imprensa com a de hostess. Ser assessora de imprensa não requer simpatia e, sim, profissionalismo e responsabilidade com todas os jornalistas (e, no meu caso, convidados) que eu autorizo entrar na casa — ainda mais depois da tragédia de Santa Maria. Com isso em mente, sempre busquei respeitar a lista prévia feita por mim, a lotação da casa, a educação das pessoas e o direito de me impor para quem pensasse que pudesse me desrespeitar. Nesse quesito, sempre tive livre arbítrio de chefes e clientes. Não por acaso, ganhei o apelido carinhoso dos amigos de “Prefeitona”.

O show do Afrika Bambaataa poderia ter sido um dia tumultuado como tantos outros, mas conseguiu ser pior quando um sujeito muito mal-educado apareceu dizendo que estava com nome na lista — e não estava. Insistente, ele disse ser produtor de uma grande revista especializada em moda e demandou que eu olhasse novamente porque ele era “amigo de um dos sócios”. Após outra negativa, ele disse conhecer o gerente da casa e que eu deveria ir chamá-lo em nome dele. Mais uma negativa até que eu respirei fundo e disse que se ele era mesmo amigo, que telefonasse e pedisse ajuda. Sem que pudesse “pedir” algo pela milésima vez, o meu amigo disse: “Cara, se ela está dizendo que você não vai entrar, você não vai entrar.” Ele, não contente, perguntou: “Como eu faço para entrar de graça?” E eu respondi: “Só comprando o ingresso.”

Esse bate-boca foi o suficiente para que o moço saísse da file e gritasse: “Eu tenho dinheiro pra comprar esse ingresso, sua preta escrota. Quem você pensa que é, sua preta escrota?”

Nessas horas, o sangue ferve, a frase ecoa e vem a vontade do meu amigo de querer partir para a agressão. Respiramos. Ao comprar o ingresso e pegar a fila comum, ele abanou o ingresso em nossa direção e gritou: “Eu tenho dinheiro para comprar essa merda, sua merda escrota. Grava aí o meu nome.”

A essa altura, o segurança já havia avisado o gerente do que havia acontecido e ele veio até mim e perguntou a descrição do cara, indo atrás dele. Parou perto de um rapaz com as características que eu havia dito e, para a nossa surpresa, ele vai até o gerente, se apresenta e diz que “gostaria de fazer uma reclamação de uma preta escrota que estava na porta”. Bastou para o gerente pegá-lo pelo braço e expulsá-lo da casa.

Esse poderia ter sido o fim de mais uma história de discriminação, mas foi apenas o começo. Sem clima para ficar até o fim do show (que, por sinal, foi bem ruim), voltei para casa pensativa. Meus pais não estavam naquele fim de semana e só voltariam no domingo. Já no sábado, minha amiga me manda uma mensagem dizendo que stalkeou o cara no facebook e diz que temos vários amigos em comum com ele. Que grande merda, pensei.

Meu pai, que no fim de semana do ocorrido estava no interior na plenária de uma pré-Conferência de Promoção de Igualdade Racial, mal chegou em casa e eu já joguei a bomba: “Como eu faço para processar alguém por racismo?” Ele sentou e me disse, passando a mão na testa: “O que aconteceu?” Conforme eu contava, ele pegou o celular e fez algumas ligações. Quando a pessoa do outro lado da linha atendeu, ele disse: “Cara, eu passo o fim de semana inteiro discutindo questões raciais e, quando eu chego em casa, minha filha diz que foi discriminada. É brincadeira? Conversa aqui com ela e diz o que a gente pode fazer sobre isso.”

Na segunda-feira seguinte, chego no trabalho e mando um e-mail para os meus chefes explicando o ocorrido e aviso que irei entrar com processo contra o tal produtor de moda. Não sei o quanto isso pode ser prejudicial para uma agência que tem muitos clientes de moda, mas, mesmo assim, eles me apoiaram. Mais do que isso, pediram para avisar a todos da agência sobre o que aconteceu e vetar o cara dos nossos convites. Coincidentemente, uma semana depois, ele apareceu na produção de moda da agência buscando peças para editoriais. Negado. A surpresa maior foi o e-mail que ele enviou a mim e ao meu chefe contando uma versão totalmente diferente. A resposta do meu chefe foi sensacional. Tá salvo até hoje na minha caixa de entrada com marcação.

Na época, meu pai conhecia a pessoa que tratava diretamente desses assuntos na Secretaria de Igualdade Racial e ele me orientou a entrar com um processo de injúria racial porque racismo no Brasil não é crime. Sim, é isso mesmo. E daí é a burocracia brasileira: vai na delegacia, dá queixa, presta depoimento, orienta as duas testemunhas (no caso, o estagiário e o gerente) a fazerem o mesmo, assina diversos documentos e espera.

E a espera durou um pouco mais de dois anos, quando as primeiras notícias sobre a audiência começaram a surgir. Audiência no Fórum Criminal na qual eu não fui intimada e três audiências de reconciliação à qual ele compareceu apenas na terceira (e última tentativa). A audiência de reconciliação nada mais é do que tentar chegar a um acordo com o acusado e propor penalidades educacionais que possam beneficiar, de alguma forma, a sociedade. E a partir daqui, eu deixo de relatar apenas um fato para começar a falar de sentimentos, de dor, de humilhação, de energia negativa e de ausência de esperança.

A frase “de frente para o inimigo” martelava na minha cabeça antes e durante a audiência. Antes, porque todas as vezes em que tinha audiência de reconciliação, eu chorava antes de dormir. Minha barriga, pernas e mãos tremiam só de imaginar ter que encontrar aquele cara novamente. Revivia, a todo o momento, a cena daquele dia e eu só ouvia uma coisa: preta escrota. Pensava em como eu reagiria se ele se demonstrasse arrependido. Pior, como eu me sentiria se ele não se mostrasse arrependido?

E foi aí que eu me senti forte porque ele não se arrependeu. Dois anos depois e ele surge contando uma versão imaginária dos fatos, negando qualquer possibilidade de ofensas, me acusando de dar uma declaração falsa e, por fim, usando a tradicional frase: eu não sou racista. Meus amigos são negros, eu tenho irmãos negros, já tive namorado negro, fiz um editorial só com modelos negras. Nesse momento, percebi que aplicar pena educacional para uma pessoa que não entende a gravidade do ato, que não entende o mínimo do significado da palavra respeito, não poderia ser colocado como alguém capaz de ensinar algo a alguém, mas, depois de muito discutir, chegamos ao consenso (talvez forçado) de que um curso de História da Moda para alunos de escolas públicas da periferia poderia ser algo bom.

Ao acabar a audiência, ouço das duas mediadores: “A sua postura é digna de aplausos. Você está de parabéns.” Saio da sala, encontro meu pai, que me esperou o tempo todo do lado de fora, e vamos embora. No caminho, conto pra ele como aconteceu e digo que pensei em encerrar o processo criminal. Explico o desgaste físico e emocional ao longo de dois anos que parecem ter se concentrado nas quase três horas que ficamos naquela sala.

Digo que não vejo como alguém incapaz de assumir o ato possa ser penalizado pelas leis dos homens. Além do mais, o processo, pra mim, não é uma questão de ganhar dinheiro, de vingança ou de alimentar um ódio mas, sim, algo que pudesse conscientizar o acusado de que todas as pessoas devem ser bem tratadas e respeitadas, independente de cor, gênero, classe social ou função que exerce. A cada frase dita por ele, era um comentário desconstruído por mim. Tudo em vão. Meu pai — que fez parte do movimento negro durante cerca de 15 anos e de diferentes formas, lutando por leis afirmativas, participando de congressos e conferências da SEPIR (Secretaria Especial de Promoção de Igualdade Racial) e tinha um escritório, em parceria com amigos negros chamado CEABRA (Coletivo de Empresários Afro-Brasileiros) promovendo cursos profissionalizantes para a comunidade negra — concordou com tudo o que eu disse.

Fui trabalhar me sentindo alguém que correu a Maratona de São Paulo depois de dois anos sem praticar qualquer atividade física. O assunto pipocava na minha cabeça o tempo todo. Chego ao trabalho, explico para os amigos e chefes como foi a audiência e bate a vontade de sair correndo para chorar no banheiro. Converso com as amigas e dá a mesma vontade. Chego em casa e conto pra minha mãe como foi a audiência e o resto do dia. Minha mãe diz: “É, minha filha, a luta é essa e ela é diária.” Meu pai, que ouvia a conversa na sala, contou que uma das mediadores foi parabenizá-lo pela filha e disse que eu era muito inteligente.

No fim da noite, faço um post no Facebook sobre tudo o que aconteceu e recebo milhões de mensagens de amigos antigos que acompanharam a história, de amigos novos, de pessoas menos próximas e a maioria dizia “ FORÇA”. Fiquei pensando que tudo o que eu menos tinha naquele momento era exatamente isso, a força. Talvez eu tenha tido durante os dois últimos anos, mas quando chega a hora do enfrentamento, é uma dor muito grande. Dor porque você percebe o quanto precisa gritar pra ser ouvida, mas ao mesmo tempo, penso no mundo que eu quero deixar para minhas primas, sobrinhas (os) e, quem sabe, meus filhos. A minha batalha até aqui não foi em vão. Dói porque você se dá conta do quanto a mulher negra é invisível perante a sociedade. Se eu fosse homem, ele não teria me destratado. Ele teria ficado nervoso da mesma forma diante de um homem negro, mas, certamente, não teria me xingado.

Os meios de comunicação nos tornam invisíveis porque somos minorias diante das câmeras, exceto quando se trata de carnaval em que a “mulata domina a cena”. A mulher negra, dificilmente, é aquela amada pelos negros brasileiros ricos e famosos, que se apaixonam e se casam com as mulheres brancas e, na maioria, loiras. A sociedade está acostumada a ver a mulher negra ocupando papéis na televisão de empregadas, babás ou moradoras da periferia. Somos tudo isso também, mas somos muito mais que isso. Hoje somos médicas, dentistas, cineastas, produtoras, jornalistas, administradores, empreendedoras, estilistas, funcionarias públicas, advogadas, psicólogas, pedagogas, atrizes, mães, assessoras de imprensa e tudo o mais que quisermos ser. Não aceitamos mais o mínimo.

Nunca havia sido violentada com esse tipo de racismo explícito. Por sempre ter consciência e orgulho de ser negra, tive um olhar atento a tudo o que acontecia ao meu redor, à maneira como as pessoas se referiam a mim, às piadas com duplo sentido, às expressões preconceituosas que ainda fazem parte do cotidiano de alguns. Mas eu sempre tive um posicionamento bem forte nesse sentido e, talvez por isso, tenha conseguido minimizar ou evitar ofensas desse tipo nas escolas, faculdades e empregos por onde passei. Ninguém anda com uma camiseta escrita “sou racista”, “sou machista” ou “sou homofóbico”. Mas são as atitudes que demonstram o seu verdadeiro pensamento preconceituoso enraizado quando uma mulher, um homossexual ou alguém negro se colocam numa posição de auto-confiança e você precisa respeitá-lo como respeitaria qualquer outra pessoa heterossexual branca do sexo masculino.

E quanto ao processo criminal, só posso dizer que sigo em minha luta diária.

{Por Ana Claudia Luiz}

—> Ilustração de Geoff Mcfetridge.