10 situações em que o feminismo protegeu minha auto-estima

10 situações em que o feminismo protegeu minha auto-estima

Existem mulheres de todos os tipos, de todas as formas, de todas as personalidades. Mas ser mulher, desde muito cedo, é o destino das fortes. Ser mulher, afinal, é sinônimo de força. E somos todas. Mas é uma ingenuidade muito grande crer que todas nos “apossamos” dessa noção de força. Não é à toa que dentro do feminismo hoje, sobretudo no cyberfeminismo, a palavra “empoderamento” tem sido tão usada. Porque empoderamento vem da noção de apoderar-se do senso de força, de poder. No caso, desse nosso poder nato de ser mulher e ser como a gente é, sem pedir licença. O que, na psicologia, é chamado de auto-estima.

No famoso discurso TEDx transformado em texto da escritora e feminista nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, We Should All Be Feminists (Sejamos Todos Feministas, Companhia das Letras, 2014), ela destaca exatamente essa condição de autenticidade. “É importante que comecemos a planejar e sonhar um mundo diferente. Um mundo mais justo. Um mundo de homens mais felizes e mulheres mais felizes, mais autênticos consigo mesmos.” Veja bem: mais autênticos consigo mesmos. Isso também é feminismo.

Nesse mesmo discurso, Adichie, a musa inspiratriz do #SomosTodosFeministas, responde a dúvidas tão comuns para a pergunta “Por que a palavra “feminista”? Por que não dizer apenas que você apoia os direitos humanos ou algo do tipo?” Ao que ela responde com maestria:

Por que seria desonesto. Feminismo é, obviamente, parte dos direitos humanos em geral. Mas escolher usar a expressão vaga dos “direitos humanos” é negar o problema específico e particular do gênero. Seria uma maneira de fingir que não foram as mulheres que, por séculos, foram excluídas. Seria uma forma de negar que o problema de gênero tem como alvo as mulheres. Que o problema não é sobre ser humano, mas é especificamente sobre um ser humano do sexo feminino.

A exemplo dela, descrevo alguns eventos do cotidiano desse machismo inconsciente (e consciente!) em tantas passagens da minha vida como mulher. E como o feminismo é um dos processos de empoderamento, ou de auto-estima, mais poderosos da mulher. E se ele ainda era um conceito frágil em algumas passagens, como ele me protege agora.

1. O dia em que eu usei um sutiã pela primeira vez

Eu morria de vergonha dos meus peitinhos proeminentes na puberdade. E lamento não ter memória afetiva pra me lembrar se o assunto foi tratado de maneira eficiente. Sinto que não. Porque quando precisei comprar meu primeiro sutiã,  a d o r e i ir até a Mesbla (oi?) com minha mãe pra isso. Mas tudo o que eu queria era esconder o fato de que já o estava usando por debaixo da camiseta. E detestei mais ainda quando os meninos da quarta série puxavam o elástico das costas com força e saíam correndo. Queria ter essa noção de que usar sutiã era uma imposição da minha cultura – e que, por isso mesmo, eu poderia ter escolhido usar ou não, sem me preocupar em moldar meus peitos ou escondê-los duplamente. Ter essa noção HOJE é muito libertador. Queria poder dizer isso a um montão de meninas nessa faixa etária.

2. O dia em que meu absorvente apareceu

Nesse mesmo período, tive de usar absorvente. Estávamos no fim da década de oitenta e as opções nas drogarias me pareciam muito desproporcionais para minha anatomia de criança. No pacote já vinha escrito a palavra “absorvente”, mas eu ouvia as mulheres mais velhas chamando aquilo de “modes” – anos depois, fui entender que era por conta da marca de absorvente mais famosa naqueles anos, a Modess. Me lembro como se fosse hoje: me estiquei para alcançar algum papel que a pessoa da fileira da frente estava passando quando a garota atrás de mim me avisou em tom nervoso, como de alguém que está presenciando uma vergonha alheia, de que meu “modes” estava aparecendo. Queria ter sido orientada de que discrição e vergonha são duas coisas muito diferentes. De que eu tinha todo o direito de não querer deixar à mostra o período do meu ciclo, mas que eu não tinha NENHUM motivo para me envergonhar por estar menstruada.

3. O(s) dia(s) em que eu ainda não usava maquiagem para esconder minhas olheiras

Lidar com minhas olheiras escuras e profundas foi uma das formas mais difíceis pra ganhar força e resiliência. Não bastava eu ter aquelas qualidades que, em São Paulo, eram valorizadas pelo meu microcosmos: eu era “a loirinha”, com “carinha de estrangeira”, a “russinha”. Eu não podia ter estampado no meu rosto dois marcantes círculos arroxeados logo acima das minhas ~perfeitas~ maçãs. Simplesmente não era permitido. Na adolescência, me perguntavam se eu tinha dormido o suficiente, se eu consumia algum tipo de droga, se eu havia estado envolvida em alguma briga, ou simplesmente levava um “nossa, o que é isso na sua cara?” ou “nossa, você parece um panda!” Foi importante não ser perfeita logo de cara – logo NA cara. Porque a beleza está na imperfeição e tive de lidar com isso desde muito cedo. Ser diferente, ser de um gênero subjugado foi algo que fortaleceu meu caráter e meu olhar para a vida.

4. O dia em que eu recebi um chocolate em formato de pênis na frente de toda a classe

Esse dia foi cruel. Foi um desses bullyings fenomenais em que nenhum dos envolvidos sabia o que estava fazendo. Estávamos todos na faixa dos 17 anos e, no dia do meu aniversário, um amigo resolveu tirar sarro da minha fama de puritana da época me dando de presente um chocolate encomendado especificamente no formato de um pênis com recheio de creme. A situação era cabeluda para um grupo de amigos adolescentes porque a história de pano de fundo envolvia traições, namoros escondidos, primeiras transas, e eu estava ali, simbolicamente, sendo forçada a receber um pênis para degustação. O único adulto da sala, o professor – e realmente não me lembro se era um homem ou uma mulher – deveria ter assumido a liderança do acontecimento e dado uma bela lição do que aquilo significava. Eu não podia dizer não ao pênis de chocolate e não poder dizer não é uma forma de agressão sexual.

5. O dia em que eu chorei na apresentação de trabalho da faculdade

Chorar. Está aí uma ação proibida para todos os adultos, sejam eles homens ou mulheres. Se os homens chorassem mais, tenho absoluta certeza de que teríamos, ao menos, uma sociedade menos estressada, menos doente, menos reprimida de emoções que precisam ser colocadas para fora. Se as mulheres não fossem julgadas por chorarem ~tanto~, a sociedade estaria fadada a ser mais acolhedora, mais humanista, mais empática. Na apresentação de um dos trabalhos na faculdade de Jornalismo, me emocionei. Me lembro mais do cenário geral do que do detalhe, mas me lembro estar muito cansada, muito estressada com aquela fase e, no meio da minha apresentação, minha voz embargou e lágrimas pipocaram, por mais força que eu estivesse fazendo para que aquilo não acontecesse. Foram uns 5 rapazes que começaram uma chacota no fundão, 5 rapazes que estariam, dali poucos anos, em grandes redações em São Paulo, cobrindo histórias humanas e as relatando por escrito, por áudio ou por vídeo. Uns 5 rapazes que nunca tiveram o privilégio de chorar na frente de uma classe de estudantes de Jornalismo. Queria não ter me sentido fraca ao deixar escapar minhas lágrimas. Queria ter sentido orgulho de me vulnerabilizar.

6. O dia em que me disseram que eu usava roupas masculinas – e isso foi uma crítica

Desde muito cedo eu gostei do que era diferente. E quando comecei a poder escolher minhas próprias roupas, resolvi usar sapatos considerados masculinos muito antes de eles serem conhecidos como modelos tipo oxford e serem ~permitidos~ às mulheres. Ser mulher é tão foda que se ficar o bicho pega, se correr o bicho come. Se não ousa, é recatada demais. Se ousa, não presta. Se usa algo velho, é fora de moda. Se usa algo na moda, é maria-vai-com-as-outras. Você é julgada o tempo inteiro. Você não é de você mesma. Você é da sociedade. E eu nunca aceitei isso. Não aceite. N ã o a c e i t e. NÃO ACEITE.

7. O dia em que me disseram que eu fui criada para ser um homem

Desde pequena, fui uma criança que preferia o carinho à distância do que o beijo melado dos adultos. E isso me perseguiu ao longo da minha vida. Sempre me senti inadequada diante da cultura do beijo no rosto no cumprimento de totais desconhecidos. Essa característica não me fez uma pessoa menos carinhosa, só me fez uma pessoa menos pegajosa – e uso essa palavra aqui só para facilitar o contraponto. Ao longo da minha vida de descobertas amorosas, fui sento tachada de insensível, de distante, de forte, de fria. Apenas porque essas características eram consideradas de propriedade de um gênero, o masculino. Até que um certo dia, essa julgamento foi expresso com todas as letras: “Evelin, você foi criada para ser um homem”. E quando ouvi isso, secretamente a recebi como um elogio. Eu tinha apenas 20 anos e estava submetida a uma cultura de que para ser bem-sucedido na vida, você tinha de ser forte – e força era algo associado apenas ao masculino. Queria jamais ter aceitado aquela frase como um elogio, embora ela estivesse sendo dita por alguém que estava claramente me criticando. Queria ter entendido que aquele cara estava me desqualificando por ter uma qualidade que ele entendia ser pertencente apenas a ele como homem.

8. O dia em que me disseram que aquela banda era de mulherzinha – e isso foi uma crítica

Minha turma sempre foi do rock, apesar de eu amar Whitney Houston na adolescência :P. Acabei até me casando com um baterista com passado no metal. Ao andar com essa grande turma do rock em diversas fases da minha vida, quantas vezes eu não ouvi que Bon Jovi era “para meninas”, que Guns’n’Roses era “som de menininha”, que o glam rock era “som de menina e de bicha”, que ouvir David Bowie também. E toda a vez que algum cara queria diminuir o gosto musical de alguém, era só aplicar algumas dessas palavras-chaves. Em todas as vezes que isso aconteceu, queria ter causado, queria ter evidenciado esse machismo enrustido – ou machismo escancarado mesmo, dependendo do ponto de vista. Agora, não deixo passar. Porque, na maioria dos casos em que eu estive presente recentemente quando o comentário foi feito, percebo como a cultura da repetição emburrece as pessoas por pura falta de reflexão. Ou evidenciam machistas enrustidos, cada vez mais evidentes. Não passarão.

9. O dia em que me disseram que eu era uma MULHER muito agressiva – e isso foi uma crítica

Isso foi a vida toda. Mas um dos exemplos mais recentes foi quando um ex-chefe me disse que as profissionais mulheres que “chegavam lá” precisavam se embrutecer e mimetizar características masculinas para impor respeito. Ele tinha absoluta certeza de que estava arrasando no discurso pseudofeminista, se referindo a mim que, naquela empresa, era diretora. Se todo o discurso já era um total equívoco, de novo, sob a crença de que determinadas qualidades são propriedade de um gênero específico – no caso, o masculino –, ele emendou que “a diferença é que tais mulheres eram sempre muito agressivas”. Houve uma época em que eu quase acreditei nisso. Eu fazia um esforço enorme de ficar calada, não evidenciar minha opinião, segurar minha onda, acreditando que assim ~domada~, eu cumpriria esse papel delicado da mulher. A igreja cristã, a protestante, especialmente, reforçava esse conceito da mulher submissa, da mulher que sabe o seu lugar. Até que, aos 22 anos, não engoli esse conceito por nem mais um minuto. Ter opinião não é sinônimo de agressividade. E agressividade não é sinônimo de desqualificação. Ou você já não ouviu que o Steve Jobs tinha um “perfil agressivo nos negócios” e isso sempre foi um elogio?

10. O dia em que me disseram que eu era estranha por não querer ter filhos

Eu sempre tive muito claro pra mim, desde muito nova, que não queria filhos. E se na adolescência, expressar essa opinião era motivo de descrença (“Quando você estiver na idade de ter filhos, isso vai mudar”, e frases do tipo), na vida adulta eu fui chamada de “pessimista” e, mais recentemente, de “estranha”. “Você deve ter algum problema, porque isso não é normal”, me disse alguém que tem 3 filhos. A incapacidade de compreensão elementar de que as pessoas não são iguais é absurda, já sabem disso todas as minorias. Mas o que fui percebendo ao longo da vida adulta é que, ao optar por não ter filhos, você é vista como uma mulher menor. Ouvi de amigos queridos frases como “você diz isso porque não é mãe”, como se ter uma opinião a respeito de qualquer coisa que seja me obrigue a ter passado por aquela determinada situação. Então não posso ter uma opinião a respeito de políticos porque não sou um deles? Não posso ter uma opinião sobre pastores porque não sou um deles? Não posso opinar sobre a violência porque não sou uma delinquente? Ah, posso opinar sobre tudo, mas não sobre essa entidade altruísta e sobrenatural e sagrada que é a de ser mãe.

“(…) ser nós mesmas faz com que nos isolemos de muitos outros e, entretanto, ceder aos desejos dos outros faz com que nos isolemos de nós mesmas. É uma tensão angustiante e que precisa ser suportada, mas a escolha é clara.”

Clarissa Pinkola Estés, em Mulheres Que Correm com os Lobos.

Sou o que sou. Sou feminista. Com muito orgulho.

{Por Evelin Fomin}

 

  • Yara Caruso

    Adorei. Situação10 me persegue kkkkkk